-Dry Martini por favor - Falei como se conhecesse aquela bebida há séculos, apesar de o garçom parecer ter percebido que eu não fazia ideia do que ia beber.
Continuei lendo o cardápio até que minha bebida chegou, mas ao invés de voltar para a mesa continuei sentada naquele banquinho giratório, descascando alguns amendoins. Dei o primeiro gole. CREDO, pensei. Mas como uma pré-adulta continuei tomando com uma cara maravilhada. Terminei o primeiro e vasculhei mais o Menu na tentativa de fazer uma escolha sábia. Pedi uma vodca de pêssego com gelo.
De repente um garoto muito do bem vestido, com um perfume que dava pra ser sentido de longe sentou ao meu lado:
-Pêssego ahm?! Minha favorita.
Dei um sorriso sem graça
-Vinícius, muito prazer. - Ele esticou a mão como se ainda vivesse nos anos 40.
-R. -apertei sua mão. Muito macias, lisinhas, poderia apertá-las a noite toda.
-Uma dose de pêssego por favor. - ele pediu ao garçom que se aproximava.
Conversamos por alguns minutos enquanto minha vodca e a dele não acabavam. Ele tinha um sotaque impecável, dentes brilhantes, e os olhos pareciam reluzir com a luz do lugar.
Ele me contou que já tinha viajado para muitos lugares, elogiou minha blusa e falou que meu cabelo era lindo, além disso falou que eu parecia mais jovem do que era, e meus pés pareciam que a qualquer momento iam parar de tocar o chão.
-Vamos pedir outra? De que dessa vez?
-Deixa eu ver aqui...-peguei o cardápio -uma de kiwi.
-Duas de kiwi por favor. Então R. me conta mais, o que você faz da vida?
Contei da escola que acabara de terminar, da faculdade que ia começar em alguns meses. Ele me contou que já fazia faculdade há um tempo e que morava com um amigao que ele estranhamente chamou de 'parceiro'.
Bebemos a vodca de kiwi, e eu já começara a rir alto de tudo que ele falava. Minha língua começou a adormecer e meus olhos pesavam, mas eu me sentia extremamente feliz. Tinha certeza que naquela noite eu iria fazer o que mais precisava: beijar na boca. Isso era ótimo. Na minha mente depois do nosso beijo apaixonado ele me chamaria pra sair no dia seguinte, saíriamos por um tempo, namoraríamos, casaríamos, e em breve ele estaria trocando as fraldas dos nossos bebês.
Pedimos um drinque que não lembro bem o nome, mas era rosa em cima e verde cintilante na parte de baixo. Já estava ficando alterada, mas mesmo assim ainda conseguia pensar com muita clareza.
-Porque o que eu penso sobre desmatamento é...- Vinícius me falava sobre sua posição política ambiental enquanto eu analisava os traços da sua boca, formava um coração.
-Mas se algum dia eu tivesse que escolher entre vestir...-Ué, ele já tinha mudado de assunto? O tempo passava tão rápido, e eu nem tinha percebido que já eram quase 2 da manhã.
-R. nós temos tanto em comum! Estou amando ter conhecido você. Espero que sinta o mesmo.
Eu tinha que tomar alguma atitude, já estava boa o suficiente pra falar para V. dos meus sentimentos que haviam acabado de nascer. Mal podia esperar. Afinal ele sentia o mesmo!
Fui aproximando meu banco giratório do dele, e sorria a cada palavra que ele dizia, coloquei minha mão na sua perna e ele me olhou. Sem falar nada fui aproximando meu rosto do dele enquanto ele continuava a falar, nervosismo, pensei. Continuei a chegar perto, meu coração já estava disparado e meu beijo seria certeiro, o caminho direto para o barco do amor com destino pra minha Lua de Mel.É AGORA É AGORA É AGORA. pensava com euforia.
Quando minha boca estava há alguns milímetros da dele uma voz atrás de nós gritou:
-Meu amor, me desculpa a demora! -Olhei para trás, e um cara de quase 2 metros olhou pra mim.
-Caralho, quem é esse estragando meu momento? Ou eu estou muito bêbada pra não reconhecer meu próprio namorado ou ele que está. -Falei meio enrolado para V.
Ele se afastou de mim aos poucos, e com um sorriso puxou o armário-homem que estava atrás de mim:
-R. esse é Deco. Meu companheiro de apartamento.
Houve uma pausa. Ufa e eu pensando que poderia ser...
-E meu namorado. - O armário completou fazendo meu queixo cair
-Desculpe, acho que estou alta demais. O que? -Perguntei estática.
-É, meu namorado R. você não sabia? Achei que tinha ficado claro. Somos gays. Agora temos que ir, mas foi muito bom conversar com você. - E me deu dois beijinhos na buchecha.
Eu fiquei lá, parada olhando pro copo vazio. Gay. Claro. Como não pensei nisso?
-É amiga... Agora só me resta você...-conversei em vão com o copo de vodca vazio.-Garçom, me ve uma dose de tequila. Uma não. Duas. Se tem alguém que nunca vai me abandonar é o José Cuervo.
ÊÊ zé. E eu tentando te trocar pra virar gente grande.
Passei o resto da noite na companhia do meu travesseiro, em casa. Da próxima vez que um homem elogiar meu cabelo vou fazer uma pergunta bem direta que pode mudar muito as coisas: Você é gay?

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